Fintech brasileira lança empréstimo com garantia em bitcoins

Uma fintech brasileira começa a oferecer, nesta segunda-feira, crédito tendo bitcoins como garantia, introduzindo no Brasil um modelo que movimenta cifras bilionárias em mercados como o americano.

A Rispar vai conceder empréstimos de valores entre R$ 500 e R$ 300 mil a clientes que aceitem dar suas criptomoedas como garantia. Como em outras modalidades de empréstimo com garantia, como a de carros ou imóveis, o bitcoin do cliente será usado para reduzir os juros do contrato.

Segundo a fintech, suas taxas ficarão entre 0,99% e 3,79% ao mês, dependendo do volume emprestado e do tamanho da garantia. O crédito poderá ser de até 60% do valor dos bitcoins oferecidos pelo cliente.

Inicialmente, a companhia aceitará apenas bitcoins, e sua ambição é originar de R$ 80 milhões a R$ 100 milhões no primeiro ano de operação. 

Correspondente bancário

Embora o mercado de criptoativos não seja regulado no Brasil, a Rispar pode intermediar a oferta de crédito porque atua como correspondente bancário de uma financeira tradicional, a carioca Lecca, explica o fundador Rafael Izidoro. Assim, para efeitos regulatórios, as Cédulas de Crédito Bancário (CCB) serão emitidas pela Lecca. A Rispar também tem uma cerificação de correspondente bancário da Febraban, a federação dos bancos, uma exigência do Banco Central, acrescenta Izidoro.

— Nossa maior preocupação era garantir a legalidade da operação, porque estamos tentando mudar essa imagem de que o segmento de bitcoin só tem empresas de pirâmide financeira. Essa visão acaba prejudicando as empresas sérias que estão trabalhando no setor — afirma Izidoro, que já havia co-fundado a fintech de empréstimo on-line Noverde e diz ter tido a ideia para a Rispar após participar do Oxford Blockchain Strategy Programme.

Enquanto o contrato estiver sendo quitado, os bitcoins ficarão custodiados na BitGo, empresa californiana que é uma das referências nessa indústria. A garantia só será executada se o tomador atrasar por mais de seis meses suas parcelas. Caso o bitcoin perca muito valor durante a vigência do contrato, pode haver uma “chamada de margem” exigindo que o cliente complemente suas garantias.

A fintech promete liberar o dinheiro em até dois dias e não realizar consultas a birôs de crédito.

— O cara pode estar com nome sujo. Tendo a garantia, o risco não está ali — acrescenta Izidoro.

Mas a Rispar fará cruzamentos de dados para garantir que o cliente não seja pessoa politicamente exposta nem represente violação de compliance bancário.

“Hodlers” são público-alvo

A fintech vai mirar o nicho de entusiastas do bitcoin que não querem se desfazer de seus criptoativos, apostando em seu potencial de valorização — os chamados “hodlers”, no jargão dessa comunidade. Enquanto as criptmoedas continuam sendo pouco usadas para transações financeiras, o público que gravita em torno da tecnologia e parte do mercado financeiro enxerga em moedas como o bitcoin uma alternativa para reserva de valor.

No ano passado, a empresa Graychain estimou em US$ 4,7 bilhões o mercado de crédito envolvendo criptoativos. O segmento é nascente, mas diversificado, com dezenas de plataformas oferecendo do crédito em dinheiro com garantia em bitcoin a transações mais sofisticadas, como o empréstimo de criptomoedas para operações de arbitragem.

Em uma das maiores plataformas, a BlockFi, o cliente deposita suas criptmoedas e, em troca, recebe juros. A Genesis, outra gigante do setor, mira no segmento de investidores institucionais, como os hedge funds. Nem sempre o modelo dá certo: na semana passada, a americana Cred, outro player do setor,  pediu proteção contra falência, alegando ter sido vítima de fraudes.

— O problema é que essas empresas estrangeiras fazem algo muito arriscado. Elas emprestam os bitcoins dados como garantia pelo cliente para outras operações, o que aumenta muito as chances de problemas. Nós não vamos fazer isso. Não vamos monetizar o bitcoin custodiado. Ele vai ficar parado — explica Izidoro. 

*Extraído inicialmente do Jornal O Globo.

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